Padre Luís António da Cruz

Localização estrutural dos conteúdos:
Localidade:
Viana do Alentejo
Entidade detentora:
Santa Casa da Misericórdia de Viana do Alentejo
Código de referência:
ASCMVNT/PLAC
Datas de produção / acumulação:
1546/??/?? ⇔ 1845/??/??
Dimensão e suporte:

8 mçs. e 7 docs.; papel e pergaminho

História administrativa / biográfica / familiar:

Entre os séculos XVIII e XIX viveu em Viana do Alentejo o Pe. Luís António da Cruz. O nome é topónimo identificativo da rua onde morou, mas a sua obra póstuma é desconhecida dos vianenses. Importante benemérito da localidade, Reitor da Matriz, de seu nome completo Luís José António da Cruz[1], era o filho mais novo[2] de José António da Cruz e de D. Maria Francisca. Neto paterno de João da Cruz Loureiro e de Joana Maria e neto materno de André Lopes Ruivo e de Margarida Martins, todos naturais de Viana. Foi baptizado na mesma localidade, a 30 de Abril de 1777[3], sendo seu padrinho o juiz de fora[4] Luís José Aleixo Pais[5]. Viria a falecer nesta vila a 26 de Setembro de 1848[6], aos 71 anos de idade.

Tendo frequentado os estudos em Évora, nomeadamente as aulas de Teologia do Colégio do Espírito Santo[7] com o propósito de chegar ao estado sacerdotal[8], em 1797 foi-lhe feito dote[9] por seus pais, para poder tomar ordens de subdiácono[10]. Inicialmente, o património doado consistia num ferragial[11] com oliveiras no sítio do Bismo, coutos[12] de Viana, do qual tomou posse a 12 de Julho daquele ano[13]. Porém, questões jurídicas embargaram a possibilidade de auferir daquele bem, o que determinou nova doação dos pais, a 27 de Outubro. Desta vez foi-lhe doado um ferragial e olival em Malfor e um ferragial e olival no sítio do Poço Concelho[14].

O facto de sabermos que o pai foi escrivão da câmara de Viana e Familiar do Santo Ofício[15] permite supô-lo, logo à partida, nascido no seio de uma família com proeminência social local e algum desafogo económico. Mas essa condição financeira favorável é mesmo atestada no seu processo de habilitação para tomar ordens, onde algumas das suas irmãs afirmam que o pai tinha muitos bens além daqueles com que dotava Luís António[16]

De facto, o agregado familiar completo era composto pelo pai, pela mãe[17] e, que exista referência, por mais cinco irmãos mais velhos: um rapaz chamado Francisco António da Cruz, que também foi padre, mas que no ano de 1791 já havia falecido[18]; e quatro raparigas cujos nomes, da mais velha para a mais nova, eram Joana Maria da Esperança, Josefa Joaquina, Maria Francisca Antónia e Teresa Luísa de Santa Ana. Em 1798 eram todas solteiras e tinham entre 25 e 34 anos[19]. Luís António tinha, então, 21 anos. Apesar do aparente conforto económico da família, supomos que sustentar tantas raparigas não fosse tarefa simples. Note-se que vivem numa época em que as mulheres de grupos sociais mais proeminentes não trabalham e que, para os padrões da época, contavam já com uma idade avançada para casar.

Ao longo da vida terá herdado dos pais outros bens a que juntou ainda outros que adquiriu por compra. A seu respeito João Manuel Santana de Sousa refere: “Os bens de mão-morta vendidos pelo estado em hasta pública, como bens nacionais[20], atingiam baixos preços. Às arrematações concorria, por vezes um único interessado que adquiria as terras pela base de licitação. Poucos dispunham de capitais para investir. (…) O caso do padre Luís António da Cruz é esclarecedor. Até 1811 havia acumulado 22 fazendas (ferragiais, courelas, vinhas e olivais) e era foreiro de 3 herdades” [21]. Pela sua morte, a 26 de Setembro de 1848, deixou as herdades de Monte das Pedras, Marmelos, Famais, Montinho do Palanque, Cega Gatos, Flor da Rosa, Espadaneira, Fevereira e Vinagra, 2 quinhões de renda sobre a Herdade da Cegonha e sobre a Herdade do Aniel, a Quinta do Gafanhão e ainda as hortas de Santo António e da Cancela. A estas juntavam-se ainda 24 propriedades de pequena ou média dimensão (ferragiais, courelas, vinhas e olivais)[22]. Tal significa que, em 37 anos, entre 1811 e 1848, passou de foreiro de três herdades a proprietário de nove, ao que acrescentou ainda a posse de 2 quinhões de renda em outras duas herdades, de 1 quinta, de 2 hortas e de mais 2 pequenas ou médias propriedades. Possuía também a casa onde morava situada na antiga rua dos Carreteiros, hoje rua Pe. Luís António da Cruz, mudança toponímica operada após a implantação da República, ocorrida em 1910[23]. O edifício, de grandes dimensões, é atribuído por Túlio Espanca ao último terço do século XVIII[24]. Resultara da junção de dois prédios, que comunicavam entre si no interior e estavam divididos por muro no quintal, onde existia um poço comum as ambas as propriedades. Num deles estava a capela de Nossa Senhora da Conceição, que ainda hoje existe. Em 1852 este prédio foi avaliado em 800.000 réis e o outro contíguo em 504.000 réis[25].

Os lucros da posse de todas estas propriedades permitiram-lhe acumular uma fortuna que usou, juntamente com as mesmas e com bens de outra natureza, para fins de beneficência, como determinou no seu testamento em 1848, o mesmo ano em que faleceu. Como consequência, na casa da rua dos Carreteiros se instalou o Instituto de Piedade e Beneficência[26]. No mesmo funciona, na atualidade, um dos lares da Santa Casa da Misericórdia, vulgarmente conhecido como lar da “Casa Pia”.



[1] Arquivo Distrital de Évora (ADE), Núcleo Eclesiástico, Justificações de Parentesco, Mç. 34, nº208.

[2] Embora em artigo publicado no nº 19 da revista Callípole, em 2011, tenhamos afirmado ser o filho mais velho, investigação recente leva a refutar essa afirmação. Luís António da Cruz seria o mais novo de seis irmãos.

[3] ADE, Registos Paroquias, Viana do Alentejo, Baptismos, Lv. 10, fl 136v.

[4] O juiz de fora era o magistrado de nomeação régia que presidia a câmara municipal. Pertencia à elite local.

[5] Note-se a coincidência dos três primeiros nomes do recém-nascido Luís José António da Cruz com o nome do padrinho: Luís José; e com o nome do pai: José António.

[6] A informação sobre o dia da morte é contraditória. No termo de abertura do seu testamento e no inventário dos bens deixados para fins de beneficência diz-se ter falecido a 26, mas no registo de óbito a data é 27 de Setembro. Esta deve ser a data do sepultamento. ASCMVA, Testamento do Pe. Luís António da Cruz, 1848, fl., 16v; AHMVA/ACVA/K/004/Mç001-1852-1872, Inventário dos bens que o Pe. Luís António da Cruz deixou para os estabelecimentos pios, 1852, fl. 4v e ADE, Registos Paroquias, Viana do Alentejo, Óbitos, Lv. 73, fl. 163.

[7] Hoje mais conhecido como Universidade de Évora.

[8] ADE, Núcleo Eclesiástico, Justificações de Parentesco, Mç. 34, nº208, fl. 44.

[9] A escolha de uma vida eclesiástica implicava a dotação de um bem ou de um rendimento que pudesse servir à sustentação do indivíduo. Tal acontecia quer na entrada no clero secular (párocos) quer no clero regular (monges de freiras)

[10] ADE, Núcleo Eclesiástico, Justificações de Parentesco, Mç. 34, nº208, fl. 44.

[11] Campo se semeadura de pastagem ou de cereais.

[12] Segundo João Sousa, os coutos eram propriedades de pequena dimensão, caracterizadas pela policultura, que ficavam na área envolvente da maioria das localidades alentejanas. Era o município que procedia à delimitação dos coutos e administrava os direitos que neles exerciam os proprietários e o povo. O direito de propriedade nos coutos era limitado pelas posturas municipais e pelos usos e costumes desde a época medieval. Em Viana correspondiam a um raio de 2km em redor da vila que abarcava hortas, vinhas, olivais, courelas, ferragiais e os baldios do concelho, as herdades da Chaminé e de Fonte Cortes e parte das herdades do Covão e da Fonte Figueira. Tinham de seguir uma exploração agrícola tradicional e uma organização de base comunitária. João Sousa, A Vila e os Coutos: no primeiro quartel do século XIX, 1984 (Policopiado).

[13] ADE, Núcleo Eclesiástico, Justificações de Parentesco, Mç. 34, nº208, fl. 45-47.

[14] ADE, Núcleo Eclesiástico, Justificações de Parentesco, Mç. 34, nº208, fl. 54.

[15] ADE, Núcleo Eclesiástico, Justificações de Parentesco, Mç. 34, nº208, fl. 73.

[16] ADE, Núcleo Eclesiástico, Justificações de Parentesco, Mç. 34, nº208, fl. 71v.

[17] No ano de 1798 o pai tinha cerca de 74 anos e a mãe cerca de 60. ADE, Núcleo Eclesiástico, Justificações de Parentesco, Mç. 34, nº208, fl. 73v.

[18] ADE, Núcleo Eclesiástico, Justificações de Parentesco, Mç. 34, nº208, fl. 2.

[19] ADE, Núcleo Eclesiástico, Justificações de Parentesco, Mç. 34, nº208, fl. 69v-73.

[20] Sobre este assunto vid., por exemplo Luís Espinha da Silveira, "Venda dos bens nacionais, estrutura da propriedade e estrutura social na região de Évora na 1ª metade do século XIX", Análise Social, Vol. XXVI (112), 1991, pp. 585- 612.

[21] João Manuel Santana de Sousa, História da Primeira Adega Social Portuguesa, Viana do Alentejo, Câmara Municipal, 1993, p. 53.

[22] AHMVA/ACVA/K/004/Mç001-1852-1872, Inventário dos bens que o Pe. Luís António da Cruz deixou para os estabelecimentos pios, 1852, fl. 20-26.

[23] Possivelmente algures entre Outubro de 1910 e o início de 1911.

[24] Túlio Espanca, Inventário Artístico de Portugal: Distrito de Évora: Concelhos de Alandroal, Borba, Mourão, Portel, Redondo, Reguengos de Monsaraz, Viana do Alentejo e Vila Viçosa, Lisboa, Academia Nacional de Belas-Artes, 1978,Tomo IX, Vol. 1., p. 444.

[25] AHMVA/ACVA/K/004/Mç001-1852-1872, Inventário dos bens que o Pe. Luís António da Cruz deixou para os estabelecimentos pios, 1852,fl. 19v.

[26] AHMVA/ACVA/K/004/Mç001-1852-1872, Inventário dos bens que o Pe. Luís António da Cruz deixou para os estabelecimentos pios, 1852, fl. 19v.

História custodial e arquivística:

Os documentos do Padre Luís António da Cruz devem ter passado para o Instituto de Piedade e Beneficência aquando da sua morte e da fundação desta instituição com os seus bens. Após a extinção da Instituto a custódia da documentação deste passou para a Misericórdia, pelo que a documentação que pertenceu ao Padre Cruz foi incluída nessa incorporação.

Âmbito e conteúdo:

Documentos pessoais do padre Luís António da Cruz, dos seus ascendentes e de particulares com os quais deve ter estabelecido relações de negócios.

Instrumentos de descrição:

Fátima Farrica, Inventário do Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Viana do Alentejo, Viana do Alentejo, Santa Casa da Misericórdia, 2015.

 

Notas:

Notas a Datas Extremas: A datação recua até 1546 uma vez que o sistema acumulou documentos de particulares pela via da aquisição de bens. Termina em 1845, 3 anos antes da morte do Padre Luís António da Cruz.

Informação contida em outros fundos:
  • Fundo:
    Instituto de Piedade e Beneficência
Descrição documental:

Fátima Farrica